Neste post, quero compartilhar com vocês os bastidores dessa missão de campo geofísica e explicar por que entender o permafrost é crucial para a geologia, a geofísica e a engenharia moderna.
Afinal, o que é o Permafrost Alpino?
Existe uma confusão muito comum de achar que permafrost é uma geleira exposta. Não é.
O permafrost é o solo, o cascalho ou a rocha que permanece congelado, a 0 °C ou temperaturas ainda menores, por pelo menos dois anos consecutivos. Na prática, ele funciona como um verdadeiro cimento invisível: a água infiltra nas fraturas da rocha, congela e consolida a estrutura de toda a montanha, mantendo paredes rochosas de centenas de metros de pé há milhares de anos. O fenômeno é puramente térmico.
O papel da rocha e a Crioclastia
A geologia local do Passo del Madriccio faz parte de uma unidade tectônica composta por rochas metamórficas, como micaxistos, quartzitos e gnaisses. Essas rochas apresentam uma foliação marcada, ou seja, planos paralelos de fraqueza.
Quando a água entra nesses planos e congela, ocorre o fenômeno da crioclastia (ou congelamento e degelo):
- A água líquida entra nos poros e fraturas da rocha.
- Ao congelar, o gelo se expande cerca de 9% em volume.
- A pressão exerce uma força massiva sobre a rocha, fragmentando-a em cascalhos (debris) que alimentam os rock glaciers.
Ao caminhar pela encosta, notam-se feições onduladas que parecem rios de pedras congeladas na paisagem. Esses são os rock glaciers.
Tratam-se de corpos de detritos rochosos que "surfam" sobre um núcleo interno de gelo, movendo-se alguns centímetros por ano.
Como identificas a atividade de um Rock glacier em campo?
- Ativo: Frente muito íngreme, instável e sem vegetação (indica movimento ativo e abundância de gelo interno).
- Inativo/Fóssil: Frente de rampa suave, com rochas colonizadas por líquens (sinal de que o movimento cessou e o gelo interno está desaparecendo).
O Efeito do Aquecimento Global
Os Alpes estão aquecendo cerca de duas vezes mais rápido que a média global. Com o aumento de quase 2 °C registrado na região desde a era pré-industrial, o permafrost profundo está entrando em uma fase isotérmica (próximo de 0 °C).
Quando a rocha atinge essa temperatura crítica:
O gelo perde sua resistência mecânica e sua capacidade de adesão.
A água de degelo satura o solo e lubrifica as fraturas.
A montanha perde a coesão e se transforma em uma potencial "bomba relógio".
O colapso do permafrost traz consequências diretas para a sociedade:
- Desabamentos maciços de rochas e fluxos de detritos (debris flows) que ameaçam vilas e trilhas nos vales.
- Instabilidade em estruturas de engenharia: Torres de teleféricos e estações de esqui construídas sobre o permafrost começam a inclinar.
A Geofísica no Campo: Investigando o Invisível
Como o permafrost fica escondido no interior do maciço rochoso, a Geofísica é a nossa principal ferramenta para mapear e monitorar essa degradação. Métodos como a eletrorresistividade (ERT) nos ajudam a diferenciar visualmente rocha saturada com água doce de rocha congelada com alto teor de gelo.
Assista ao Vídeo Completo da Missão
Para ver de perto as paisagens do Passo del Madriccio, os glaciares de rocha e todos os detalhes explicados direto do campo, confira o vídeo que gravei para o canal:

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