Bastidores do Pré-Campo: O que faz um Geofísico ?

 

Se você imagina a rotina de um geofísico apenas analisando dados em um escritório climatizado, os bastidores de um trabalho de campo nas montanhas do norte da Itália vão mudar completamente a sua visão.

Faltava aqui no blog um post de uma intensa jornada de aquisição de dados geofísicos em altitudes que desafiam o corpo e deslumbram os olhos. Quem vê as fotos bonitas das montanhas do norte da Itália não imagina o sufoco que é o dia a dia de um geofísico no campo. Hoje vou contar o relato exato do que aconteceu no nosso segundo dia de campanha. O que era para ser uma manhã normal de aquisição de dados virou uma verdadeira missão de resgate de equipamentos e veículos após uma tempestade avassaladora.


1. O Despertar na montanha e a Logística de Campo

Acordei cedo no hotel após uma noite curta (havíamos chegado muito tarde no dia anterior). Da janela do quarto, o som alto do rio logo abaixo já denunciava que muita água tinha descido durante a noite.

Tomei um café da manhã reforçado e comecei a preparar a mochila com um pressentimento de que o dia seria complicado: agasalho de frio, corta-vento para chuva, capacete (sertanejo) de segurança, notebook e meias reservas. A previsão indicava que uma tempestade severa chegaria por volta de 13h, então precisávamos correr contra o tempo.

Para chegar até a área onde estavam nossos equipamentos e os veículos de apoio (a Hilux e o Defender), tivemos que pegar dois teleféricos (funivia) e cruzar uma ponte tibetana suspensa. Lá de cima, a quase 3.000 metros de altitude, a realidade nos deu um soco no estômago.

A chuva da noite anterior tinha sido muito mais violenta do que prevíamos. Conforme subíamos, começamos a ver os estragos: a força da água havia destruído encostas e causado deslizamentos severos de terra e rocha. A estrada principal de acesso estava completamente interrompida por toneladas de detritos e lamas acumuladas. Era impossível passar normalmente.

Nossa missão principal mudou de foco: precisávamos acessar a área, recuperar os carros e movê-los para um local seguro antes que a tempestade da tarde piorasse tudo de vez.

Caminhando a pé pelos depósitos de detritos, passamos por cenários que pareciam um livro de geologia aberto,  com dobras e falhas incríveis nas rochas, mas a atmosfera era de pura tensão. O gelo do verão estava derretendo rápido e, a cada poucos minutos, ouvíamos estrondos assustadores ecoando no vale: eram pequenas avalanches e desprendimentos de rocha acontecendo bem perto da gente.

Quando finalmente alcançamos as caminhonetes perto do refúgio, o desafio foi técnico e braçal. Tivemos que manobrar os veículos em um espaço curtíssimo, na beira de um penhasco assustador, desviando dos blocos de rocha e da lama que cobriam o caminho. Foi o famoso trabalho de muita paciência, tração 4x4 e precisão milimétrica para não perder os carros montanha abaixo.

Apesar do susto, do bloqueio da estrada e da neblina densa que começou a descer e apagar toda a visibilidade, conseguimos retirar os veículos da zona de risco e reposicioná-los em segurança. No caminho, ainda deu tempo de recolher uma amostra de rocha para a minha coleção (faço isso em todo campo no norte ou sul da Itália).

Esse dia foi uma prova real de como as mudanças climáticas estão intensificando os processos naturais nas montanhas. O que parecia uma estrada sólida ontem virou um rio de rochas hoje. Na geofísica, a gente planeja a coleta de dados, mas é a natureza quem dita as regras do dia.

Confira o vídeo aqui:





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