Estar a mais de 3000 metros de altitude, no Passo del Madriccio (na fronteira entre o Vale Martello e o Vale da Solda, na Itália), é uma experiência impressionante. À primeira vista, quem olha para essas montanhas enxerga apenas um cenário imponente de rochas expostas, neve e vento constante. Mas debaixo dos meus pés acontece um dos fenômenos mais críticos, complexos e invisíveis do nosso planeta: o
colapso do permafrost alpino.
Neste post, quero compartilhar com vocês os bastidores dessa missão de campo geofísica e explicar por que entender o permafrost é crucial para a geologia, a geofísica e a engenharia moderna.
Afinal, o que é o Permafrost Alpino?
Existe uma confusão muito comum de achar que permafrost é uma geleira exposta. Não é.
O permafrost é o solo, o cascalho ou a rocha que permanece congelado, a 0 °C ou temperaturas ainda menores, por pelo menos dois anos consecutivos. Na prática, ele funciona como um verdadeiro cimento invisível: a água infiltra nas fraturas da rocha, congela e consolida a estrutura de toda a montanha, mantendo paredes rochosas de centenas de metros de pé há milhares de anos. O fenômeno é puramente térmico.
O papel da rocha e a Crioclastia
A geologia local do Passo del Madriccio faz parte de uma unidade tectônica composta por rochas metamórficas, como micaxistos, quartzitos e gnaisses. Essas rochas apresentam uma foliação marcada, ou seja, planos paralelos de fraqueza.
Quando a água entra nesses planos e congela, ocorre o fenômeno da crioclastia (ou congelamento e degelo):
A água líquida entra nos poros e fraturas da rocha.
Ao congelar, o gelo se expande cerca de 9% em volume.
A pressão exerce uma força massiva sobre a rocha, fragmentando-a em cascalhos (debris) que alimentam os rock glaciers.
Os "Rios de detritos": Rock Glaciers
Ao caminhar pela encosta, notam-se feições onduladas que parecem rios de pedras congeladas na paisagem. Esses são os rock glaciers.
Tratam-se de corpos de detritos rochosos que "surfam" sobre um núcleo interno de gelo, movendo-se alguns centímetros por ano.
Como identificas a atividade de um Rock glacier em campo?
Ativo:
Frente muito íngreme, instável e sem vegetação (indica movimento ativo e abundância de gelo interno).
Inativo/Fóssil: Frente de rampa suave, com rochas colonizadas por líquens (sinal de que o movimento cessou e o gelo interno está desaparecendo).
Em Madriccio, a transição de corpos ativos para inativos está se acelerando, revelando o derretimento do gelo interno.
O Efeito do Aquecimento Global
Os Alpes estão aquecendo cerca de duas vezes mais rápido que a média global. Com o aumento de quase 2 °C registrado na região desde a era pré-industrial, o permafrost profundo está entrando em uma fase isotérmica (próximo de 0 °C).
Quando a rocha atinge essa temperatura crítica:
O gelo perde sua resistência mecânica e sua capacidade de adesão.
A água de degelo satura o solo e lubrifica as fraturas.
A montanha perde a coesão e se transforma em uma potencial "bomba relógio".
O colapso do permafrost traz consequências diretas para a sociedade:
Desabamentos maciços de rochas e fluxos de detritos (debris flows) que ameaçam vilas e trilhas nos vales.
Instabilidade em estruturas de engenharia: Torres de teleféricos e estações de esqui construídas sobre o permafrost começam a inclinar.
Em alguns locais dos Alpes, engenheiros chegam a realizar injeções de nitrogênio líquido a mais de 100 metros de profundidade no solo para tentar re-congelar e estabilizar artificialmente as fundações, uma intervenção cara e complexa.
A Geofísica no Campo: Investigando o Invisível
Como o permafrost fica escondido no interior do maciço rochoso, a Geofísica é a nossa principal ferramenta para mapear e monitorar essa degradação. Métodos como a eletrorresistividade (ERT) nos ajudam a diferenciar visualmente rocha saturada com água doce de rocha congelada com alto teor de gelo.
Assista ao Vídeo Completo da Missão
Para ver de perto as paisagens do Passo del Madriccio, os glaciares de rocha e todos os detalhes explicados direto do campo, confira o vídeo que gravei para o canal:
Se você imagina a rotina de um geofísico apenas analisando dados em um escritório climatizado, os bastidores de um trabalho de campo nas montanhas do norte da Itália vão mudar completamente a sua visão.
Faltava aqui no blog um post de uma intensa jornada de aquisição de dados geofísicos em altitudes que desafiam o corpo e deslumbram os olhos. Quem vê as fotos bonitas das montanhas do norte da Itália não imagina o sufoco que é o dia a dia de um geofísico no campo. Hoje vou contar o relato exato do que aconteceu no nosso segundo dia de campanha. O que era para ser uma manhã normal de aquisição de dados virou uma verdadeira missão de resgate de equipamentos e veículos após uma tempestade avassaladora.
1. O Despertar na montanha e a Logística de Campo
Acordei cedo no hotel após uma noite curta (havíamos chegado muito tarde no dia anterior). Da janela do quarto, o som alto do rio logo abaixo já denunciava que muita água tinha descido durante a noite.
Tomei um café da manhã reforçado e comecei a preparar a mochila com um pressentimento de que o dia seria complicado: agasalho de frio, corta-vento para chuva, capacete (sertanejo) de segurança, notebook e meias reservas. A previsão indicava que uma tempestade severa chegaria por volta de 13h, então precisávamos correr contra o tempo.
Para chegar até a área onde estavam nossos equipamentos e os veículos de apoio (a Hilux e o Defender), tivemos que pegar dois teleféricos (funivia) e cruzar uma ponte tibetana suspensa. Lá de cima, a quase 3.000 metros de altitude, a realidade nos deu um soco no estômago.
A chuva da noite anterior tinha sido muito mais violenta do que prevíamos. Conforme subíamos, começamos a ver os estragos: a força da água havia destruído encostas e causado deslizamentos severos de terra e rocha. A estrada principal de acesso estava completamente interrompida por toneladas de detritos e lamas acumuladas. Era impossível passar normalmente.
Nossa missão principal mudou de foco: precisávamos acessar a área, recuperar os carros e movê-los para um local seguro antes que a tempestade da tarde piorasse tudo de vez.
Caminhando a pé pelos depósitos de detritos, passamos por cenários que pareciam um livro de geologia aberto, com dobras e falhas incríveis nas rochas, mas a atmosfera era de pura tensão. O gelo do verão estava derretendo rápido e, a cada poucos minutos, ouvíamos estrondos assustadores ecoando no vale: eram pequenas avalanches e desprendimentos de rocha acontecendo bem perto da gente.
Quando finalmente alcançamos as caminhonetes perto do refúgio, o desafio foi técnico e braçal. Tivemos que manobrar os veículos em um espaço curtíssimo, na beira de um penhasco assustador, desviando dos blocos de rocha e da lama que cobriam o caminho. Foi o famoso trabalho de muita paciência, tração 4x4 e precisão milimétrica para não perder os carros montanha abaixo.
Apesar do susto, do bloqueio da estrada e da neblina densa que começou a descer e apagar toda a visibilidade, conseguimos retirar os veículos da zona de risco e reposicioná-los em segurança. No caminho, ainda deu tempo de recolher uma amostra de rocha para a minha coleção (faço isso em todo campo no norte ou sul da Itália).
Esse dia foi uma prova real de como as mudanças climáticas estão intensificando os processos naturais nas montanhas. O que parecia uma estrada sólida ontem virou um rio de rochas hoje. Na geofísica, a gente planeja a coleta de dados, mas é a natureza quem dita as regras do dia.