Água salgada onde não devia: investigando a intrusão salina em Fossalon di Grado (Itália)

 


Nas planícies costeiras recuperadas do nordeste da Itália, boa parte do território está no nível do mar ou abaixo dele, mantida seca por canais e estações de bombeamento. Esse cenário, somado à subsidência do terreno, à elevação do nível do mar e à exploração intensa dos aquíferos (são mais de 55 mil poços na região), favorece a intrusão salina: a água do mar avança e contamina os aquíferos de água doce.

Em Fossalon di Grado, perto da foz do rio Isonzo, um poço da rede de monitoramento regional  registra há mais de uma década concentrações de cloreto de 232 a 283 mg/L. São valores pelo menos dez vezes maiores que os de qualquer outro poço num raio de 8 km. Um poço isolado, porém, não diz se a anomalia é local ou extensa, nem a que profundidade ela está. Além disso, os levantamentos geofísicos regionais mais recentes não chegaram até esse setor.

A água do mar tem cerca de 35 g/L de sais dissolvidos, o que torna sua resistividade uma a duas ordens de grandeza menor que a da água doce. Essa diferença é exatamente o que os métodos geoelétricos enxergam. Na literatura, valores abaixo de ~1–2 Ω·m são uma assinatura recorrente de água salina ou salobra em contextos costeiros.

Realizamos algumas Sondagens Elétricas Verticais (SEV) com arranjo Schlumberger e um resistivímetro Syscal Terra.  E testei um software que venho  escevendo faz algum tempo e os resultados foram cruzados com os dados de cloreto, sódio, bromo e condutividade de 12 poços.

Em algumas SEVs próximas à foz, aparece uma camada muito condutiva (0,58–1,00 Ω·m) entre ~2 e 32 m de profundidade, coincidente com o poço anômalo. Em outras mais distantes do poço, essa camada simplesmente não existe. A anomalia  tende a ser localizada, não regional, principalmente  porque a assinatura química do poço (enriquecimento em brometo e boro, depleção de sulfato) também, sugere uma água salina antiga e isolada, e não uma intrusão marinha recente.

Como a SEV mostrou anomalia geofísica  entre 2 e 32 m, mas o poço anômalo capta água a 110 m. Trata-se de um único corpo salino contínuo ou de duas feições distintas? Só a SEV não resolve isso. Por isso que investigamos tambem com tomografia elétrica (ERT).

No vídeo abaixo, mostro como a tomografia elétrica  estava sendo usada na investigação de intrusão salina:



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