O “ruído” que virou sinal: potencial espontâneo revela a água dentro de um deslizamento nos Alpes

Fevereiro de 2022, inverno nos Alpes Cárnicos. Estávamos fazendo uma tomografia elétrica 3D num deslizamento ativo e, como sempre, os aparelhos gravavam o tempo todo o potencial elétrico do terreno. Normalmente esse registro é tratado como ruído e descartado. E se ele estivesse contando algo sobre a água dentro da encosta?

Geoelétrica em encosta alpina

Geoelétrica na região do Vajont (Itália), 2019.

Sem eletrodos especiais

O potencial espontâneo (SP) é sensível ao fluxo de água subterrânea, mas a receita tradicional exige eletrodos não polarizáveis, que são caros e delicados. Aqui mostramos que é possível registrar sinais de SP estáveis com eletrodos de aço inox, os mesmos da tomografia, usando um arranjo de gradiente esparso.

Figura do artigo: sinal analítico do potencial espontâneo sobre a fonte da anomalia (Journal of Applied Geophysics, 2025).

Figura do artigo: sinal analítico do potencial espontâneo sobre a fonte da anomalia (Journal of Applied Geophysics, 2025).

Ao todo foram 23 unidades autônomas espalhadas pela encosta. Cada uma gravava sozinha, sem cabo ligando uma à outra.

Unidades espalhadas na encosta e o “chapéu” de potencialASA: um pico sobre a fonteperfil sobre a anomalia

Ilustração: unidades de três eletrodos espalhadas na encosta e o pico do sinal analítico sobre a fonte.

Mapas que mostram a infiltração

Processando os dados em sequência, montamos mapas de SP no tempo (time-lapse). Neles apareceram anomalias em forma de “chapéu”, ligadas à infiltração de água, e uma relação clara das anomalias com as estruturas geológicas e com a topografia.

Figura do artigo: mapas de potencial espontâneo no deslizamento dos Alpes Cárnicos.

Figura do artigo: mapas de potencial espontâneo no deslizamento dos Alpes Cárnicos.

Para não ficar só no “olhômetro”, aplicamos a técnica da amplitude do sinal analítico 2D (ASA), que ajuda a delimitar as zonas onde estão as fontes do sinal.

💡 O que muda: o SP vira uma ferramenta de primeira passada, qualitativa, para monitorar deslizamentos e estudar a hidrogeologia da encosta, aproveitando dados que muitas vezes já estão sendo coletados.

Neste vídeo mostro como fazer o download dos dados do FullWaver, o sistema usado em campanhas como essa:

📄 Ficha do artigo
O. Souza de Araujo, R. Francese, S. Picotti, F. Fischanger, A. Bratus, M. Giorgi. Self-potential signal analysis to recognize sources of primary anomaly in a landslide: a novel approach. Journal of Applied Geophysics, 242, 105912, 2025.
DOI: 10.1016/j.jappgeo.2025.105912
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Oz Araújo

Oz Araújo

Geofísico pesquisador em Trieste, Itália, doutor em Geociências pela Università di Parma. Trabalha com eletrorresistividade e IP, métodos eletromagnéticos, potencial espontâneo, sísmica, GPR e métodos potenciais, do campo ao modelo 3D. Escreve o Estudando Geofísica desde 2012.

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