O dique escondia um rio de areia: como calibramos o eletromagnético para encontrá-lo
Imagine ter que inspecionar quilômetros de dique antes da próxima cheia. Furos de sondagem são pontuais e caros. A tomografia elétrica (ERT) é ótima, mas é lenta para cobrir grandes extensões. E os equipamentos eletromagnéticos (EMI), que você pode literalmente carregar caminhando, são rápidos, mas nem sempre enxergam o que importa. Foi exatamente isso que aconteceu com a gente nos diques do rio Brenta, perto de Veneza.
Campo de geoelétrica em Stra (Itália), 2019.
O vilão: areia dentro do dique
Uma intrusão de areia dentro de um dique é um caminho preferencial para a água. Durante as cheias sazonais, foi justamente por ali que apareceram infiltrações no trecho estudado. A inspeção visual não consegue dizer onde está esse corpo de areia, nem o tamanho dele. A geofísica consegue, desde que o método certo seja usado do jeito certo.
A ERT como referência
Primeiro, fizemos a tomografia elétrica. Ela mostrou o corpo de areia com clareza, e o resultado bateu com os dados de sondagem. Depois, passamos com dois equipamentos EMI multiarranjo. O primeiro simplesmente não viu a intrusão. O segundo, com bobinas mais espaçadas, se saiu melhor, mas ainda assim não o suficiente para uma decisão de engenharia.
Ilustração: a correlação com a ERT corrige os dados EMI antes da inversão.
A virada: calibrar antes de inverter
A solução foi usar a ERT como uma “régua”. Calculamos os coeficientes de correlação de Pearson entre os dados EMI e a resistividade da ERT e, a partir disso, calibramos as leituras eletromagnéticas antes da inversão. O resultado: seções de resistividade realistas para os dois equipamentos, mostrando a intrusão de areia onde ela realmente está.
No short abaixo mostro um pouco de como é o monitoramento de diques com FDEM:
O. S. Araujo, S. Picotti, R. G. Francese, F. Bocchia, F. M. Santos, M. Giorgi, A. Tessarollo. Frequency domain electromagnetic calibration for improved detection of sand intrusions in river embankments. The Leading Edge, 42(9), 615–624, 2023.
DOI: 10.1190/tle42090615.1
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Oz Araújo
Geofísico e pesquisador em geofísica aplicada: eletrorresistividade, métodos eletromagnéticos e água subterrânea. Escreve o Estudando Geofísica desde 2012.
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