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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

On 21:00 by Raphael Di Carlo in ,    Sem comentários
Quem já assistiu o famoso filme O Núcleo, que fala da viagem de geofísicos ao interior da Terra para restaurar o campo geomagnético? Pois é, o que parecia impossível agora está em andamento, não para chegar ao núcleo,  mas para ao menos conhecer um pouco melhor o que há abaixo da Crosta.

Está sendo preparada uma missão de um pouco mais de US$ 1 bilhão para perfurar 6km até o manto - uma região de 3000km, em média, formada por rochas em estado dúctil - e assim trazer as primeiras amostras de rochas de uma profundidade tão grande.


Essa missão pode responder uma das maiores questões em relação a origem e evolução da Terra, levando em consideração a formação dos continentes e oceanos. Geólogos envolvidos no projeto comparam  essa missão com a Missão Apollo em relação a quantidade de informação que será retirada das amostras. Contudo o time de cientistas deve primeiro encontrar um meio de atravessar os tubos de perfuração por 10km de rochas sob uma pressão litostática grande - um desafio tecnológico que um dos co-líderes do projeto Damon Teagle, da Universidade de Southampton (Grã-Bretanha) nomeia de "o maior desafio da história das Geociências". 

A missão contará com uma dose de dificuldade extra, pois será realizada no meio do oceano, já que lá a espessura da Crosta tem seu menor valor: 6km, comparado com a média de 60km em relação a crosta continental. De acordo com Teagle já foram identificado três possíveis locais para o furo, todos no Oceano Pacífico, pois lá o assoalho é formado em uma zona de acresção devido a distensão rápida de placas tectônicas. O local de furo irá perfurar somente 30cm de camada para sair do assoalho oceânico e entrar no manto - uma monumental façanha de engenharia. Segundo Teagle, "será o equivalente a levar um fio de aço da largura de um fio de cabelo humano ao fundo de uma piscina e inseri-lo em um terminal de 0,1mm de largura e perfurar alguns metros abaixo."

Para alcançar o feito, os pesquisadores estão contando com o Chikyu - um navio japonês de perfuração lançado em 2002 responsável por carregar cerca de 10km de tubos. Outro fator que dificulta a missão é o tempo de vida útil dos tubos de perfuração de 50-60 horas, pois após esse período eles precisam ser substituídos. Sendo assim a perfuração poderia durar anos caso a tecnologia não avance nesse sentido.

A primeira tentativa de alcançar o manto da Terra começou no início da década de 60. Intitulado de "Projeto Mohole", após a descoberta da descontinuidade que separa a crosta do manto pelo meteorologista croata Andrija Mohorivicic, uma equipe americana tentou perfurar poucos metros dentro do assoalho oceânico na ilha de Guadalupe, leste do Oceano Pacífico. O feito foi reconhecido pelo presidente Kennedy via telegrama, contudo o projeto foi encerrado em 1966. Desde então um projeto russo foi realizado em 1980 na Península de Kola e obteve uma profundidade de 12km perfurados na crosta terrestre. Já em 2011 a gigante Exxon Mobil registrou uma perfuração de 12km no leste da Rússia, entretanto a perfuração não foi totalmente horizontal e  não chegou a alcançar nem o embasamento de uma bacia sedimentar.

Enquanto essas perfurações não chegaram nem perto do manto, foi criado o Programa Integrado de Perfuração no Oceano, liderado principalmente por geólogos. O programa afirma que atualmente "muitas das tecnologias de perfuração em águas profundas são utilizadas na indústria do petróleo", entretanto dados os desafios e o custo de US$ 1 bilhão, muito ainda precisa ser desenvolvido para dar fundamento à missão. Para Teagle alcançar o manto terrestre dará um "legado de conhecimento científico fundamental" e "inspirará" as futuras gerações: "Recentemente, eu estava dando uma palestra para um grupo de estudantes de 15 anos e eles (e os professores) estavam fascinados pela tecnologia e pelo fato de que podemos perfurar uma cavidade  utilizando uma coluna de acoplada a um navio a 4km acima da lâmina d´água, na superfície do oceano."

Assim como as técnicas de perfuração, as próprias amostras irão esclarecer muito os pressupostos dos mecanismos de funcionamento do nosso planeta. De acordo com Teagle apesar do manto corresponder 68% da massa da Terra, nós só temos uma idéia plausível do seu mecanismo: "O manto é o motor que conduz nosso planeta e o porquê de termos terremotos, vulcões e continentes. Temos idéias e  inferências mas não um conhecimento específico de fato".

O governo japonês já investiu uma quantia substancial no projeto através da construção do Chikyu, com muitos cientistas considerando essa missão equivalente a uma Missão Apollo japonesa. Se o apoio japonês puder ser somado a outros patrocínios, a missão poderá começar antes do fim da década fazendo com que humanos alcancem o manto terrestre no começo de 2020.

Fonte: CNN



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